sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Por que meus amigos mudam tanto?


Houve um tempo em que tudo parecia muito estável e muito seguro. Tudo e todos. Eles eram todo dia os mesmos e nós achávamos graça nas mesmas piadas, assistíamos os mesmos programas na TV, gostávamos das mesmas bandas. Nossos tímidos planos de viagens eram conjuntos, nossos planos para o fim de semana harmonizavam perfeitamente. Esse tempo passou.
Hoje em dia é um pouco estranho. O tipos de humor mudaram. Cada um assiste uma série diferente- somente game of thrones ainda é capaz de unir parte de nós. Alguns ouvem Liniker enquanto outros elevam o volume ao máximo berrando sobre o cake by the ocean. Uns fumam, outros não comem carne, outros só sabem se divertir com muito destilado, outros insistem em propor restaurantes que cobram R$150 por cabeça. A gente acaba ficando confuso.
Poderia dizer que hoje tenho um rol muito mais rico e diverso de amigos. Opiniões diferentes, programas de vários estilos, trilha sonora variada. Mas eu não vou mentir: sinto falta de como tudo era antes. Sinto falta de quando a gente marcava um hamburger e pronto, chegava, ria, dividia a conta e estava tudo bem. Hoje tem que ter antecedência, tem debate sobre o lugar escolhido, tem uma leve sensação de que nossos velhos conhecidos, por vezes, se tornam novos desconhecidos- com hábitos, propostas e roteiros inéditos.
Talvez o sinal mais evidente seja o fato das nossas amizades terem passado a viver de lembranças. Nos encontramos e começamos a falar sobre aquele dia engraçadíssimo de 2001, sobre aquele namorado esquisito que a Ju tinha aos 15 anos, sobre o porre na viagem de formatura. Nos apegamos às nossas melhores memórias e parece que são só elas que ainda nos unem. Sentados numa mesa de restaurante, ruminamos o nosso delicioso passado e então eu me pergunto: o que estamos construindo para nos lembrarmos daqui outros 15 anos? Ou as memórias de escola e faculdade deverão perdurar até lá?
Dói bastante perceber os desencontros. Uma liga muito para a marca da roupa, outra só para a legenda partidária. Um milita contra a homofobia, outro ainda faz piada com homem que usa camisa cor de rosa. Uma namora um advogado e outra um artista plástico. É fácil entender porque encontramos refúgio tão seguro nas memórias. As diferenças do presente nos assustam e é mais fácil nos divertirmos com as semelhanças do passado.
Mas a parte mais difícil é assumir que a gente também mudou- e não foi pouco. É fácil culpar os outros, dizer que um era mais divertido antigamente, outro era mais maleável, o terceiro não namorava esse babaca de hoje, a quarta não era workaholic, o quinto não ficava citando filósofos no bar. Mas e a gente? A gente também não mudou? Também não frustra em certa medida as expectativas e as lembranças alheias? É claro que sim, o tempo não perdoa ninguém.
A única coisa que segue segura é o afeto. Só nos encontramos- quando as agendas permitem- por causa do afeto que perdura. É ele quem resiste às nossas divergências políticas, aos nossos cônjuges que não têm nada a ver um com o outro, aos nossos empregos que não dialogam, aos nossos interesses tão díspares. É o afeto que toma porrada, que vê aquela gente tão mudada, mas que permanece de pé e resiste, agarrando-as. É por ele que a gente insiste. É por ele que a gente não larga o osso.
E o afeto mora no melhor lugar possível: no outro. Aquela pessoa que mudou o corte de cabelo, o tipo de roupa e o discurso ainda é aquela na qual nosso afeto se instalou há tantos anos e se nega a ir embora. E talvez a gente precise entender que não é necessário usar o passado como escudo. Se o afeto ainda mora ali, nós ainda somos os mesmos. Todo o resto- bolsa, tom de voz, bebida e trabalho- é carcaça. A essência não mudou.
De fato é mais fácil culpar o outro, culpar a vida, maldizer o presente e vangloriar o passado do que trabalhar as diferenças com afeto. É chato chegar no bar e escolher carinhosamente, um assunto que agrade o outro. É mais fácil chegar e falar sobre o que nos interessa e reclamar que as conversas não fluem. Mas não tem jeito: todo amor dá trabalho. E, sabe? São eles. São os amigos da vida toda, ainda são eles. Eles valem a pena. Eles continuam sendo a base, mesmo que tenham mudado de cor. Não desistam de mim, queridos. Eu vou sempre insistir em nós.

sábado, 2 de julho de 2016

A idade do pijama

A idade do pijama



A velhice tem lá suas benesses: ir ao Banco no horário de pico e bem na sua vez, chegar para ser atendido na sua frente, merecendo aquele seu sorriso mais amarelo; servir-se antes de todos e pegar o bife maior e mais suculento da travessa, e ainda dizer que nem está com fome; reclamar em alto e bom tom de absolutamente tudo e ninguém se incomodar; sentar-se na cadeira mais confortável da casa e assistir a mulher da Iogurteira Top Therm num volume audível num raio de 150mts…
Enfim, eu poderia ficar aqui listando inúmeros privilégios da 3ª idade. Veja bem, não estou criticando, isso é um direito inegável, mesmo porque ainda chego lá!
Contudo, o maior benefício da velhice é ficar invisível. Virar paisagem, cadeira, muro. E isso dá uma liberdade incrível. Neste inverno conheci uma velhinha que já não tira mais o pijama para sair de casa. Veste um roupão por cima e sai. Eu a encontrei assim, roupão, pijamas e chinelo de pano na padaria. Três vezes.
Na terceira, resolvi segui-la.
Pensei: ela está certa, e dentro de alguns anos eu também vou fazer isso. Eu também quero poder acordar e ir para a padaria, do jeito que estiver. Pensei ainda: ela deve morar aqui na rua mesmo, que nem eu. Por que ela pode ir de pijama para a padaria e eu não? Daí que me veio: porque ela já se tornou invisível.
Segui a Senhorinha para ver onde morava. Não era na minha rua, nem na rua de baixo, nem na rua seguinte. A velha mora a mais de quatro quarteirões daqui e mesmo assim, pijamas! Pensei: bem, é inverno, tudo bem.

Então, na semana passada, aquele calor de rachar, encontrei a velha de camisola transparente esvoaçante na padaria! Que velhice que nada. Uma sem-vergonha, isso sim!

autoria desconhecida