Você nasceu num vilarejo
da África Equatorial.
Não importa seu nome, você
é uma entre milhares.
Além das outras desgraças
que a esperam, você nasceu mulher.
Sobreviver ao parto já foi uma vitória sobre as estatísticas.
Chegar viva à
sua idade sem sofrer qualquer tipo de mutilação foi um milagre. Sua mãe morreu de epidemia, você mal a conheceu.
Seu pai você nunca soube
quem foi.
E
seu destino está fixado nas estrelas.
Deve haver uma palavra na
sua língua para “ destino “. Talvez seja a mesma
palavra para “danação”.
Sua biografia já foi decidida,
antes de você nascer.
Quem a decidiu você também nunca soube quem
foi. Seu
destino está fixado nas estrelas – mas as estrelas se movem.
Não estão fixadas
no mesmo lugar todas as noites. E
algumas fogem.
Você
vê os riscos que deixam no céu as estrelas que fogem.
E você decide
fugir também. Fugir do seu destino.
Fugir da danação.
É pouco provável que
exista o termo “livre-arbítrio” na sua língua.
Você o descobre em você.
Você inventa a sua própria liberdade.
E você foge da sua
biografia.
Com outros do seu vilarejo,
caminha para o norte,
para o Mediterrâneo.
Não morre no caminho – outro milagre!
Não morre sufocada no
barco abarrotado de fugitivos que atravessa o
Mediterrâneo. Não morre afogada antes de chegar ao seu outro
destino, o destino que você escolheu.
E começa outra biografia.
Ou:
Você nasce numa cidade
chamada Londres.
Seu nome não só importa,
como é sujeito de especulação nacional até ser escolhido.
Sua mãe é linda, seu pai é rico e tem emprego garantido, Sua foto provoca
êxtases, você já é uma celebridade internacional.Ah! e um detalhe: você
é a quarta na linha de sucessão ao trono da Inglaterra. Dependendo da disposição
das estrelas, pode acabar rainha.Nada lhe faltará.
Mas mesmo que queira, jamais poderá fugir da biografia
que prepararam para você.
Danação.
Luís Antonio Veríssimo